Revolução digital nos pagamentos
A evolução dos sistemas de pagamento no varejo está remodelando a interação entre consumidores e supermercados, com soluções tecnológicas que combinam praticidade, segurança e personalização, reduzindo custos operacionais e aprimorando a jornada de compra em um mercado cada vez mais conectado.
Os meios de pagamento têm desempenhado um papel central na transformação do varejo supermercadista no Brasil, trazendo inovações que impactam tanto a operação dos estabelecimentos quanto a experiência do cliente. Com o avanço de tecnologias como Pix, carteiras digitais e pagamentos por aproximação, os supermercados estão se adaptando a um cenário de digitalização acelerada, enquanto enfrentam desafios como taxas de maquininhas, conciliação financeira e ajustes no fluxo de caixa. Além disso, a integração com benefícios como os vouchers de alimentação e o Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) adiciona camadas de complexidade e oportunidade.
O Pix tem se consolidado como o meio de pagamento mais usado no Brasil em número de transações (63,8 bilhões em 2024, crescimento de 52% em relação a 2023), superando cartões de crédito (19,8 bilhões) e débito (16,7 bilhões). Nos supermercados, porém, o cartão de crédito lidera devido ao maior valor médio das compras. O Pix é mais usado para pagamentos rotineiros e de menor valor. Seu diferencial é ser aceito por 98,7% dos estabelecimentos comerciais, incluindo supermercados, ficando atrás apenas do dinheiro (99,1%). Cartões de débito (98%) e crédito (97,4%) também têm alta aceitação. A adoção do Pix reduziu a dependência de dinheiro físico, melhorou o fluxo de caixa dos supermercados (por ser instantâneo) e diminuiu custos com taxas de adquirentes em comparação com cartões.
Duas tendências confirmam uma revolução digital em curso no varejo brasileiro: a
hiperpersonalização da experiência de compra e a integração de serviços financeiros aos canais de venda. De acordo com o estudo O Futuro do Varejo, preparado pela infratech Celcoin, o uso inteligente de dados, aliado à adoção de tecnologias inovadoras de pagamento, está moldando uma nova era para o comércio no Brasil. A C&A, por exemplo, passou a permitir o pagamento com reconhecimento facial em suas lojas físicas para usuários do C&A Pay. Já o Mercado Livre, que aposta fortemente em soluções como o Pix Parcelado e o BNPL (Buy Now, Pay Later), observou um crescimento de 51% na carteira de crédito de consumo.
A integração de tecnologia e praticidade no varejo está transformando a experiência de compra, conforme destaca Roberto Kanter, da consultoria Canal Vertical: “Tudo que puder unir tecnologia, experiência para o cliente e segurança num meio de pagamento está dentro do foco de desenvolvimento do supermercado. Creio que veremos cada vez mais interações entre apps e varejo. Será comum estar dentro na loja e não precisar ir no caixa. Seu telefone vai funcionar como leitor de RFID ou escâner de códigos, reconhecendo os produtos da cesta ou carrinho e realizando o débito de valores. Na porta da loja, se instala alguma instância de conferência. Hoje, na Renner, você já não precisa se dirigir ao caixa: baixa o app da loja, escaneia, paga e vai embora. Claro que tem fiscal, mas é mais rápido o processo.”
MUDANÇAS NO PAT
O Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), criado pela Lei nº 6.321/1976, incentiva empresas a oferecerem vale-alimentação (VA) e vale-refeição (VR), com benefícios fiscais como dedução de até 4% no Imposto de Renda para optantes pelo Lucro Real e isenção de alguns encargos trabalhistas no Simples Nacional. Fundamental para a nutrição de milhões de trabalhadores, o PAT está no centro de debates em 2025, impulsionado pela alta da inflação dos alimentos (6,6% até junho, segundo o IPCA) e pela pressão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por medidas que reduzam o custo de vida.
Para aumentar a eficiência do programa, que movimenta bilhões de reais anualmente, o governo avalia mudanças para cortar custos operacionais. Uma proposta, já descartada, previa substituir os cartões de VA e VR por transferências via Pix em contas específicas dos trabalhadores, eliminando intermediários e reduzindo taxas de operadoras como Alelo, Sodexo, Ticket e VR. A ideia foi abandonada após resistências do ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, que criticou: “O pagamento via Pix poderia ser desvirtuado com outras coisas. Estamos resolvendo a situação e o governo vai, sim, apresentar uma medida.”
As últimas informações dão conta de que um decreto regulamentar está pronto na Casa Civil desde 15 de julho e pode ser anunciado a qualquer momento. O documento prevê algumas mudanças importantes. A intenção do governo é diminuir os custos de intermediação ao limitar em 3,6% a taxa de administração das operadoras e reduzir o prazo de compensação do pagamento aos estabelecimentos (restaurantes e supermercados) em até 48 horas.
POSIÇÃO DA ABRAS
Para a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o atual sistema de vouchers alimentação no âmbito do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) está inflando os preços e prejudicando tanto comerciantes quanto consumidores. Vouchers de arranjo fechado cobram até 10% com taxas adicionais. Modelos de arranjo aberto, como Swile e PicPay, têm taxas menores, equiparáveis às de cartões de crédito, e oferecem mais flexibilidade.
As propostas da Associação incluem: reduzir custos, estimular a concorrência e aumentar a transparência, garantindo acesso a alimentos mais baratos. “O que pedimos não é favor, é justiça para o consumidor. Buscamos garantir que supermercados continuem sendo um dos setores mais acessíveis para todas as famílias brasileiras. Ganham os milhões de trabalhadores, as empresas empregadoras e a economia do Brasil”, afirma o presidente João Galassi.
REDECEN: DEFESA DE ASSOCIADOS
Patrique Nicolini Manfroi é o presidente da Redecen, uma associação fundada em 2010 que reúne supermercados para fortalecer a negociação com fornecedores e otimizar processos operacionais, como os relacionados a meios de pagamento. A Redecen atua na defesa dos interesses de seus associados, buscando melhores condições comerciais e soluções para problemas como taxas de maquininhas de cartão e operações com vouchers de alimentação.
Sobre as principais queixas dos supermercados em relação às taxas de maquininhas de cartão e ao uso de vouchers de alimentação, como tíquete ou vale-refeição, Nicolini destaca: “Dentre as diversas reclamações relatadas estão a falta de negociação das taxas, cobranças indevidas de antecipações, erros de processamento faltando vendas, inclusão de novas modalidades de cobrança como taxa fixa por transação sem prévia negociação, cobrança de valores elevados de DOC/TED para reembolso das vendas, anuidades e mensalidades, entre outros.” Ele aponta que esse tipo de comportamento é mais comum entre empresas do segmento de vouchers, especialmente as maiores, enquanto nas empresas de adquirência (maquininhas), os problemas estão relacionados a mensalidades, contrapartidas com instituições bancárias e taxas mais altas para lojas com menor volume de vendas: “Quanto menor o valor transacionado, maiores serão as taxas ao lojista.”
Para mitigar o impacto dessas taxas e resolver problemas operacionais, como atrasos ou erros de processamento com vouchers, a Redecen tem adotado estratégias específicas. “Os associados da Redecen possuem um diferencial competitivo há algum tempo. Desde nossa fundação em 2010, esse tema foi muito debatido, e, ao consolidarmos e direcionarmos esses valores como grupo, conseguimos negociar com algumas dessas empresas,” explica Nicolini. Ele também destaca o papel de parceiros da associação na conciliação bancária: “Temos um acompanhamento de grande parte dessa volumetria através de fornecedores parceiros que acompanham e assessoram essas lojas no dia a dia, diminuindo muito esses erros operacionais e ressarcindo nosso associado quando lesado.”
Quanto às tendências de mercado, como o crescimento do Pix e das carteiras digitais, Nicolini observa que elas já impactam significativamente as operações nos supermercados. “A digitalização da moeda já é uma realidade e estará cada vez mais presente no dia a dia das lojas. O consumidor está cada vez mais ‘tecnológico’ e em constante evolução. Comparando o Pix como se fosse uma bandeira de cartão, ele estaria entre as top 5 nas lojas associadas à Redecen,” afirma. Ele ressalta os benefícios dessas novas formas de pagamento. “A menor circulação do dinheiro físico é uma segurança e um conforto que as carteiras digitais e o Pix trazem ao consumidor. Além disso, o benefício da instantaneidade do dinheiro na conta, da segurança, dos custos menores com transporte de valores e das taxas, que, quando não conseguimos zerar, conseguimos negociar bem melhor que os cartões bandeirados, também estimulam o lojista a aderir com força a essa modalidade”, explica o presidente da Redecen.
Para acompanhar essas mudanças, a Redecen mantém seus associados atualizados: “Estamos sempre atentos a essas mudanças, aproveitando as oportunidades que se apresentam e mantendo nossos lojistas atualizados através de canais de WhatsApp, nosso sistema de gestão e com os encontros mensais que fazemos com as lideranças das empresas associadas,” conclui Nicolini.
CONCILIAÇÃO DE CARTÕES
O contador e empresário Cláudio Paes é diretor da SOS Cartões, empresa especializada em soluções de conciliação de cartões com sede no Rio Grande do Sul e atuação nacional. Com experiência como analista sênior de cartões em instituições financeiras e executivo de contas da Redecard, Paes destaca o papel da conciliação de cartões, um processo essencial para os supermercados garantirem a saúde financeira em um cenário de margens apertadas e alta dependência de recebíveis.
A conciliação de cartões consiste na verificação de que as vendas registradas no sistema do supermercado (ERP) foram reconhecidas pela adquirente (administradora de cartões) e devidamente liquidadas, com o valor correto creditado na conta bancária.
“É um processo crítico, pois os principais ativos de um supermercado estão no estoque e no fluxo de caixa futuro a receber de cartões,” explica Paes. Ele diferencia a conciliação da baixa automatizada no ERP, que marca vendas como pagas, mas nem sempre valida o efetivo depósito bancário, já que as administradoras agrupam pagamentos de forma distinta, descontando taxas e tarifas variadas.
COMPLEXIDADE DO PROCESSO
Os supermercados enfrentam diversas dificuldades nesse processo. A primeira é a complexidade decorrente da diversidade de bandeiras – até 30 em um único estabelecimento –, cada uma com regras, taxas e prazos próprios. “As taxas variam conforme o tipo de transação, volume de vendas e tipo de negócio, dificultando a previsão e a conciliação,” observa Paes. Outro problema é a falta de padronização nas informações fornecidas pelas adquirentes, o que gera divergências nos relatórios. Além disso, prazos de recebimento desalinhados com os de pagamento a fornecedores complicam o fluxo de caixa, especialmente em vendas parceladas. Fraudes, estornos e cancelamentos também exigem controle rigoroso para evitar perdas. “Erros operacionais, como falhas de comunicação entre o caixa e o setor financeiro, e processos manuais aumentam a chance de erros despercebidos,” alerta Paes.
Esses desafios afetam supermercados de todos os portes, mas são agravados em redes com filiais, vendas parceladas ou recebimentos em múltiplas contas bancárias. A falta de integração entre sistemas como PDV, TEF e ERP intensifica o problema, dificultando a visão clara das vendas e recebimentos. “O básico é saber quanto vendeu, quanto gastou para vender e se recebeu corretamente,” reforça Paes.
A SOS Cartões oferece uma plataforma que automatiza a conciliação, reduzindo a necessidade de análise manual. “Desenvolvemos uma interface que identifica divergências, permitindo focar apenas nas vendas com problemas,” diz Paes. A ferramenta fornece um painel de bordo com uma visão geral das vendas, custos e prazos, além de relatórios detalhados para a controladoria, o financeiro e o contábil. A integração com ERPs, via APIs e Open Banking, agiliza o processo, enquanto a automação desonera equipes de tarefas manuais.
SELF CHECK-OUTS e SMART CARTS
A tecnologia em termos de equipamento para redução do atrito na hora mais dolorosa ao comprador também avança bastante, com a proliferação dos self check-outs e os carrinhos inteligentes. No caso da primeira, ela deixou de ser um recurso restrito a grandes redes e se tornou uma realidade acessível para diversos modelos de varejo. De acordo com a Grand View Research, o mercado global de sistemas de autoatendimento deve atingir US$ 10,49 bilhões até 2030, crescendo a uma taxa anual de 13,6% entre 2025 e 2030. A tendência é impulsionada pela busca por agilidade, autonomia e menor contato físico.
Para Eduardo Córdova, CEO da market4u, rede de mercados autônomos que opera em condomínios residenciais e comerciais, esse comportamento revela uma mudança estrutural no varejo: “O consumidor de hoje quer liberdade. Quando oferecemos a ele autonomia para comprar no próprio ritmo, com segurança e praticidade, entregamos valor real. E isso se traduz em fidelização”, afirma.
Com base em sua experiência à frente da rede, Eduardo Córdova lista alguns motivos estratégicos pelos quais os varejistas apostam no self-checkout. O equipamento reduz as filas e dá fluidez, acelerando a jornada. Outra vantagem é a redução dos custos operacionais. A liberdade de conduzir todo o processo de compra ainda fortalece a sensação de pertencimento e aumenta significativamente os índices de satisfação e fidelização.
EXPERIÊNCIA EVOLUI
Juliano Camargo, CEO da Nextop, empresa brasileira especializada em soluções tecnológicas para varejo, indústria e logística, lidera o desenvolvimento do Smart Cart, o primeiro carrinho inteligente da América Latina. Equipado com tela touchscreen, leitor de códigos de barras, cinco câmeras, balança móvel e inteligência artificial, o Smart Cart permite que o cliente escaneie produtos, acompanhe o total da compra e realize o pagamento diretamente no carrinho, nunca enfrentando filas.
Desde seu lançamento, em 2022, nas redes Enxuto e Savegnago, Camargo destaca avanços significativos: “A experiência evoluiu significativamente. Além da consolidação nas redes que já utilizavam, como Savegnago, que ampliaram o uso para mais lojas, conquistamos novas redes importantes, como Bistek, Empório Prime, Rede Litoral e Brasão.” Ele acrescenta que a tecnologia está em negociação com players nacionais e internacionais, com projeção de alcançar 20 redes e 120 lojas até o fim de 2025, totalizando 730 carrinhos inteligentes. Além disso, a Nextop introduziu a cestinha inteligente, com a primeira implementação na flagship Nestlé Store SP, visando a atingir 400 unidades até dezembro, com negociações em andamento com varejistas do Sul e Sudeste.
A empresa oferece três modelos de locação diária de carrinhos inteligentes: A Versão Básica, a R$ 20 por dia, inclui console e câmera de auditoria; a Versão Intermediária, a R$ 80 por dia, tem mais segurança com câmeras e balança integradas; e a Versão Premium, a R$ 100 por dia, oferece reconhecimento automático dos produtos com perdas praticamente zeradas.
Apesar dos avanços, persistem desafios para a expansão do Smart Cart. “O principal desafio ainda é o entendimento pleno e a adoção da solução, considerando os benefícios para todos os envolvidos no ecossistema do supermercado,” afirma Camargo. Ele destaca que, para o consumidor, o Smart Cart oferece uma experiência com ofertas personalizadas e cashback instantâneo.” Para fornecedores, proporciona uma oportunidade inédita de anunciar diretamente ao consumidor no ponto exato da decisão de compra, através do Retail Media integrado. Já para os supermercadistas, o benefício é o aumento significativo da rentabilidade do tíquete médio.