Cadeia Fria 2.0
A gestão eficiente da cadeia fria é um dos pilares para o sucesso no setor supermercadista, tendo em vista que muitas redes enfrentam o desafio de garantir a qualidade de perecíveis enquanto buscam reduzir custos e atender às exigências sanitárias. No Brasil, as perdas no varejo supermercadista equivalem a 1,57% do faturamento bruto dos supermercados, com cerca de 45% delas atribuídas à perecibilidade e vencimento de produtos – um "ralo" que impacta diretamente a lucratividade, segundo a pesquisa da Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe) 2024. Com o avanço das tecnologias da chamada Cold Chain 2.0, soluções inovadoras estão revolucionando a forma como os supermercados gerenciam refrigeração, otimizam energia e minimizam perdas.
Manter a estabilidade térmica em todas as etapas da cadeia fria – do armazenamento ao ponto de venda – é um dos principais desafios enfrentados pelos supermercados. Afinal, um desvio de apenas +2°C pode inviabilizar lotes inteiros de produtos, gerar multas milionárias por descumprir normas como RDC 430 e ISO 22000 e danificar a reputação da marca, com recalls e insatisfação do cliente.
Segundo Antônio Gobbi, diretor da Full Gauge Controls, “muitas vezes, a variação térmica ocorre por falta de monitoramento e gerenciamento contínuo, além da ausência de integração entre os sistemas de refrigeração”. Surpreendentemente, muitos estabelecimentos, até mesmo de grande porte, ainda utilizam métodos manuais, como pranchetas, para registrar temperaturas. “É algo impensável nos dias de hoje, com tecnologias acessíveis para todos os tamanhos de negócio”, destaca.
Outro ponto crítico é a abordagem corretiva predominante em muitos supermercados, que só agem após problemas já terem comprometido os produtos. “A gestão remota e o uso de controladores inteligentes antecipam falhas, reduzindo perdas e garantindo conformidade com normas sanitárias”, explica Gobbi. Além disso, a eficiência energética é uma preocupação crescente. Conforme dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), a energia elétrica é o segundo maior custo dos supermercados, atrás apenas da folha de pagamento. Equilibrar o consumo energético com a conservação ideal dos perecíveis é um desafio que a automação tem ajudado a superar.
Rede inteligente
A Full Gauge Controls, sediada em Canoas, oferece soluções que tornam a cadeia fria mais eficiente e sustentável, como controladores digitais de gerenciamento inteligente da refrigeração, munidos de alarmes configuráveis, registros precisos de temperatura e controle otimizado de degelo. O grande diferencial da empresa é o software Sitrad, lançado em 1997 e hoje uma referência em gerenciamento remoto. “O Sitrad permite que o responsável pela manutenção ou o proprietário acesse informações em tempo real e ajuste parâmetros sem deslocamento, algo que diferencia um software de gerenciamento de um simples monitoramento”, frisa. A ferramenta, acessível via internet, é amigável e atende desde minimercados até grandes redes, com funcionalidades como emissão de relatórios gráficos e configuração de alarmes.
A integração de controladores com sensores IoT cria uma rede inteligente que centraliza o controle de temperatura, umidade e desempenho dos equipamentos. “Isso permite decisões rápidas, como ajustes remotos ou programações de manutenção preventiva, garantindo padronização da qualidade em todas as unidades de uma rede”, destaca. O impacto na logística é significativo: evita-se a exposição de produtos fora das condições ideais, reduzindo perdas e atendendo às exigências da Anvisa.
Casos de Sucesso
A aplicação prática dessas tecnologias já transformou a operação de supermercados gaúchos. Em uma rede do interior do Rio Grande do Sul, o Sitrad, da Full Gauge, identificou falhas intermitentes em uma câmara fria durante a madrugada, evitando a perda de cargas de laticínios e carnes. Em Porto Alegre, uma loja de grande porte reduziu o consumo de energia em mais de 20% ao automatizar ilhas de congelados, sem comprometer a conservação. “São resultados que mostram retorno imediato e sustentável”, afirma Gobbi.
OPORTUNIDADES DE MERCADO
Rachel Stinebaugh, sócia sênior na Supply Change Capital, é uma especialista no setor e constantemente escreve artigos sobre o tema no LinkedIn. Ela destaca três áreas de oportunidade no mercado na cadeia fria: softwares de previsão de estoque, otimização de transporte refrigerado e gestão de armazéns frios. “Soluções que otimizam estoque em serviços de alimentação podem reduzir perdas de 4% a 10% dos alimentos adquiridos”, diz ela. No transporte, softwares que conectam oferta e demanda podem aumentar a eficiência em um setor fragmentado, onde a maioria das transportadoras operam com três caminhões ou menos. Para armazéns, tecnologias que combinam software, hardware e ciência de dados para gerar eficiência energética e rastreabilidade, são exemplos de soluções completas que atraem grandes players.
O mercado global de cadeia fria, avaliado em US$ 228 bilhões, deve atingir US$ 372 bilhões em cinco anos, com o segmento de monitoramento e otimização – incluindo softwares e sensores IoT – projetado para quadruplicar até 2030. Stinebaugh aponta que “56% das startups de cadeia fria financiadas desde 2019 focam em software, muitas integrando IoT para oferecer análise e otimização”. Essas tecnologias permitem gerenciar temperatura, umidade e desempenho de equipamentos em tempo real, reduzindo perdas e melhorando a rastreabilidade.
Stinebaugh destaca que soluções como essas, que combinam software e IoT, são cruciais para o varejo alimentar. “Produtos que otimizam estoque e energia agregam valor ao reduzir desperdícios e atender às metas de sustentabilidade”, diz ela. No entanto, a autora alerta que soluções de software precisam ser holísticas, integrando-se aos fluxos de trabalho existentes para maximizar a adoção.
BOX: INOVAÇÕES QUE TRANSFORMAM A CADEIA FRIA
Crescimento Global: O mercado de cadeia fria deve atingir US$ 372 bilhões em 2030, com monitoramento e IoT como segmentos de maior expansão.
O Brasil possui a 20ª maior capacidade de armazenamento em cadeia fria do mundo, com cerca de 6 milhões de metros cúbicos, impulsionado principalmente pelos setores de alimentos e medicamentos.
O crescimento do mercado é significativo, com estimativas de crescimento anual superior a 8% nos últimos cinco anos, segundo a Global Cold Chain Alliance.
84% das remessas da cadeia fria consistem em produtos hortifrutigranjeiros, carnes, frutos do mar, laticínios e outros produtos alimentícios
Redução de Perdas: Softwares de previsão podem cortar desperdícios de 4% a 10% em alimentos adquiridos
Eficiência Energética: Automação de ilhas de congelados reduz consumo em até 20%, como visto em casos gaúchos
Conformidade Sanitária: Sensores IoT e relatórios gráficos garantem rastreabilidade e atendem à Anvisa
Oportunidades no Transporte: Softwares que conectam oferta e demanda podem otimizar a logística refrigerada, ainda fragmentada
Sustentabilidade: A cadeia fria gera 1% das emissões globais; tecnologias de otimização ajudam a reduzi-las
