O efeito da IA nas operações
O recado é direto: o supermercadista que não incorporar a Inteligência Artificial (IA) ao seu ambiente de negócios corre o risco perder protagonismo no mercado. “Quem não adotar a médio prazo vai ficar muito para trás e vai ser pouco competitivo”, afirma Sami Diba, CEO do NEO Estech.
Para o executivo, a diferença competitiva entre as empresas que utilizam e as que ignoram a IA se tornará visível nos próximos dois a três anos. O impacto com a ferramenta virá principalmente da maior rapidez na tomada de decisões, melhor conhecimento da operação e do cliente, e ganhos de produtividade. Esses fatores são especialmente críticos em mercados com margens de lucro reduzidas, como o varejo alimentar.
De acordo com estimativas da International Data Corporation (IDC), a IA deve gerar impacto econômico global de €17,9 trilhões até 2030. Já um estudo da McKinsey & Company aponta que 72% das empresas no mundo já utilizam algum tipo de solução baseada em IA em seus processos.
NA PRÁTICA
A startup brasileira de inteligência de dados aplicada à gestão de equipamentos, lançou em outubro o NEO Lume, uma IA dedicada ao monitoramento e suporte técnico de equipamentos. Com a tecnologia, os clientes podem conversar diretamente com a inteligência artificial via web, app ou WhatsApp, para receber informações 24 horas por dia e resolver questões operacionais em tempo real. Entre elas, monitoramento em áreas como refrigeração (evitar perdas de produtos perecíveis), controle de energia e ar-condicionado (reduzir custos operacionais) e gestão de manutenção preventiva (diminuir paradas de equipamentos).
Para se ter uma ideia as despesas com energia elétrica equivalem a (1,5% a 3,5% sobre o faturamento bruto), manutenção (0,8% a 1,5%) e perdas (1,8% a 2,5%), de acordo com estudos da Nielsen, consultorias de energia e auditorias de redes do setor. Na prática, a tecnologia auxilia nas maiores dores do varejista: redução de custos operacionais e de combate às perdas.
“Com a IA a gente pode reduzir na faixa de 80% as perdas de mercadoria relacionadas a equipamentos. E ter, em média, redução de 13% em energia de ar-condicionado, 14% em refrigeração e 20% em manutenção”, conta Sami Diba. O profissional ainda aborda que o caminho ideal é focar em uma dor principal (como perdas ou energia), resolver bem esse ponto e, depois, ampliar o uso da IA.
PRECIFICAÇÃO DINÂMICA
Além disso, a tecnologia pode auxiliar na previsão de demanda, ajuste automático de pedidos, otimização logística, monitoramento de validade e armazenamento, além de criação de promoções personalizadas conforme a data de vencimento. “Com o uso da IA, é possível criar promoções inteligentes para movimentar o estoque, evitando que produtos próximos do vencimento cheguem ao consumidor final”, explica o CEO da PPM Education, Alexandre Abdalla. A ferramenta permite ajustar preços de forma dinâmica, levando em conta variáveis como estoque, validade e comportamento de compra. “A tecnologia pode sugerir descontos e promoções para acelerar o fluxo de saída”, ressalta Abdalla citando o Walmart e o Mercado Livre como exemplos de empresas que já utilizam modelos de precificação e recomendação baseados em IA.
HIPERPERSONALIZAÇÃO
Com base na análise de dados e no aprendizado do comportamento do consumidor, a IA possibilita experiências hiper personalizadas, como recomendações de produtos e serviços e mensagens direcionadas. “A IA pode ser usada em programas de fidelidade e promoções específicas, segmentação de clientes”, pontua Abdalla.
Além disso, a tecnologia permite ainda a criação de relatórios dinâmicos que facilitam a visualização de dados e a tomada de decisões humanas baseadas em informações atualizadas. Diante disso, contribui para a melhor experiência de compra e o fortalecimento da fidelização do consumidor.
DADOS
Para Alexandre Abdalla, a principal barreira à adoção da IA: a falta de organização e padronização de dados. Hoje você tem informações muito pulverizadas. O importante é centralizar tudo em um banco de dados único”, pontua.
Por causa disso, defende a governança de dados, respeitando a (Lei Geral de Proteção de Dados) LGPD, reforçando que a segurança e confiabilidade das informações dos clientes são fundamentais. “Você só vai ter sucesso na aplicação da IA quando tiver uma base de dados bem estruturada. E isso leva tempo. Sem dados confiáveis, a IA gera decisões erradas”, explica.
Ele reforça que esse é um processo de médio prazo, exigindo preparo e investimento prévio. “Poucas empresas pensam nisso, mas é primordial uma governança de dados para que se cresça de forma sustentável”, analisa Abdalla.
LIÇÃO DE CASA
Para o CEO do NEO Estech, a IA só gera resultados quando há mudança no comportamento da liderança e na cultura interna da companhia. “Antes de aplicar IA, é importante ter uma lição de casa. A empresa tem que já usar dashboard, monitorar indicadores, ter algum tipo de análise de dados e preparar a empresa para essa mudança”, analisa Sami Diba.
O levantamento da Association for Talent Development (ATD) aponta que 94% das empresas citam falta de conhecimento técnico como barreiras para a adoção de soluções de inteligência artificial em treinamentos corporativos. “O gargalo não é tecnológico, é cultural. Quando a liderança não entende o impacto da inteligência artificial no aprendizado, o resultado é paralisia. O caminho está em capacitar gestores e testar soluções de forma ágil, sem esperar por grandes projetos para começar”, analisa a especialista em desenvolvimento de pessoas e CEO da Transforma People & Performance,Tatiany Melecchi.
Além da captação da gestão, outra estratégia envolve programas de experimentação em pequena escala. Isso contribui para gerar evidências rápidas de valor e reduzir as resistências internas. “É preciso criar espaços de aprendizado contínuo. Não adianta ter acesso à melhor plataforma de IA se a equipe não se sente segura para usá-la”, analisa Melecchi. Dessa forma, incorporar as ferramentas de IA de forma gradual nos fluxos já existentes da empresa e implementar a tecnologia com projetos cada vez mais amplos da empresa
TENDÊNCIAS
A expectativa é que, entre 2026 e 2027, o varejo alcance maturidade no uso da IA, com foco no ganho da produtividade e redução de custos operacionais. “Os resultados perceptíveis da IA demoram cerca de 14 meses para aparecer devido a fatores como: estruturação de dados, treinamento de equipes e definição de problemas a resolver”, analisa Alexandre Abdalla. Ele ainda prevê a importância da incorporação da ferramenta no setor. “Quem tratar a IA como infraestrutura de negócio, com métricas e governança, vai competir melhor em custo, prazo e qualidade. O resto ficará no piloto eterno”, conclui.
Tendências:
- A IA é fundamental para manter a competitividade no setor.
- Os anos de 2026 e de 2027 serão os anos de maturação da tecnologia.
- Dados limpos e centralizados são alicerces do bom funcionamento.
- IA reduz desperdício, automatiza processo e aumenta produtividade.
- A ferramenta terá um impacto econômico em €17,9 na economia global até 2030.
- Estudo aponta que 72% das empresas globais já adotam a IAl nas suas empresas.
Dicas de como começar:
- Inicie projetos-piloto em áreas específicas.
- Integre a ferramentas de forma gradual nos fluxos já existentes.
- Centralize e padronize os dados.
- Invista na capacitação das lideranças e da equipe.
