ESG nos supermercados: do discurso à prática
A chamada agenda ESG tem avançado em um ritmo acelerado. Muito mais do que ações filantrópicas somente, essa agenda provoca uma empresa — de qualquer tamanho e setor — a contribuir para a resolução de problemas ambientais, sociais e éticos, por meio das decisões de negócios que toma em seu dia a dia. Isso é feito por meio de políticas que contribuem para a redução da pobreza, da discriminação e das contaminações, regenerando ecossistemas, promovendo princípios éticos, por meio de suas atividades de negócio, como: compra, venda, contratação de fornecedores, seleção de funcionários, políticas internas, planos de crescimento, ações de marketing e comunicações.
A relevância do ESG (sigla para ambiental, social e governança) já é reconhecida por grande parte dos profissionais brasileiros. Segundo um levantamento realizado pela TOTVS, 77% dos trabalhadores acreditam na importância do tema dentro das organizações, e 51% já identificam ações concretas sendo aplicadas em suas empresas. Por outro lado, apenas 21% revelaram que suas empresas possuem uma área dedicada a ESG – o que reforça a necessidade de ampliação dos debates sobre o tema para garantir que as práticas adotadas sejam realmente eficazes, mensuráveis e confiáveis.
No Brasil, cada vez mais negócios, incluindo supermercados, percebem que a sustentabilidade é, além de um sério compromisso ético, uma estratégia de negócios. Dados do estudo Panorama da Sustentabilidade 2025, divulgado pela Amcham Brasil, apontam que 76% das empresas brasileiras já implementam práticas sustentáveis no dia a dia, e que 72% delas integraram a sustentabilidade em seus planejamentos estratégicos.
Ao mesmo tempo, o desafio de comprovar o retorno financeiro dessas ações ainda persiste para mais da metade das companhias, mostrando que o caminho para a maturidade ESG exige antecipação, mensuração e engajamento interno. Mesmo em setores em rápido crescimento, o panorama brasileiro indica haver espaço para avançar. Apenas 48% das empresas utilizam benchmarks externos para medir desempenho e 39% possuem uma área dedicada à ESG.
“Hoje, para além do discurso, é fundamental que empresas tenham como comprovar suas ações ESG com base em critérios técnicos e auditáveis. É aí que entra a certificação, como uma ferramenta de apoio que valida e dá transparência aos compromissos assumidos”, destaca Alexandre Xavier, vice-presidente de ESG da Associação Brasileira de Avaliação da Conformidade (Abrac). “O ESG só se torna efetivo quando vai além das campanhas de marketing e passa a fazer parte da gestão da empresa. As certificações, concedidas por organismos acreditados pela Coordenação Geral de Acreditação (Cgcre) do Inmetro, são um passo essencial nesse caminho, porque exigem comprovação, auditoria e melhoria contínua”, completa Xavier.
A professora paranaense Mariana Schuchovski, engenheira florestal com mais de 20 anos de experiência em ESG e Sustentabilidade, reforça que essa tríade não é só um diferencial competitivo. “Não veremos retrocesso nessa pauta. Essas demandas não irão desaparecer. Só vamos ver a régua subir daqui por diante”, alerta. Não é questão de a empresa ser perfeita, mas de buscar sempre evoluir com ética, comprometimento e ciente de sua pegada ecológica. “Tudo é sempre uma jornada, não se encerra num ano, não termina com a obtenção de um certificado. Não tem linha de chegada. Os desafios são constantes.”
Ela já assessorou desde uma grande empresa que só trocava copos plásticos por canecas até um pequeno restaurante interessado em capacitar pescadores locais a selecionar peixes por espécie e tamanho, preservando cardumes e biodiversidade. “As companhias podem ajudar a transformar a sociedade. Normalmente, elas dão mais importância aos temas ambientais do que aos sociais e de governança. Mas tudo bem, é por aí que as captamos.”
PREOCUPAÇÃO DAS GRANDES
A percepção de que o tema ESG é mais associado a grandes empresas do que a pequenas e médias no setor supermercadista tem raízes em fatores estruturais, econômicos e de mercado. Um estudo feito pela Serasa Experian mostrou que 89% das micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) já adotam alguma prática ESG, mas apenas 33,3% dos negócios sabem o que a sigla significa. Entre os principais desafios, estão o custo inicial elevado, a falta de capacitação técnica e a complexidade regulatória. Micro e pequenas empresas também enfrentam barreiras para medir e comunicar seus avanços.
Na visão da supermercadista Patrícia Machado, diretora do Supermago e presidente do Agas Mulher, o termo ESG assusta grande parte dos supermercados de pequeno e médio porte, pois exige planejamento, desenvolvimento e acompanhamento, tornando-o complexo. “Porém é importante reforçarmos que quando se trabalha com ética e transparência, os processos tendem a ser mais sustentáveis, e são as pequenas ações que transformam o dia a dia, por exemplo: melhoria no descarte de resíduos, redução no desperdício de alimentos, contratação inclusiva etc.”
Mariana Schuchovski reconhece que isso é prevalente em todos os segmentos. “As grandes empresas estão à frente, algumas fazem isso há mais de década. Elas são mais cobradas em seus posicionamentos e certas iniciativas são mais viáveis em escala maior. Enfim, pouco importa a razão pela qual uma empresa está fazendo, o que importa é fazer bem-feito”, reflete. “ESG é parte de compromisso, de responsabilidade, ela traz impactos econômicos, mas também traz resultados positivos, inclusive financeiros.”
BOX GUIA ABRAS/KPMG PARA ESG
Abras e KPMG editaram uma cartilha sobre o tema fixando os dez objetivos ESG para o setor de varejo alimentar brasileiro.
São cinco objetivos na perspectiva ambiental: 1) gestão de resíduos e logística reversa de embalagens; 2) redução de emissões de gases refrigerantes; 3) eficiência hídrica; 4) eficiência energética; 5) redução de emissão de gases efeito estufa na operação e na logística.
Três objetivos na perspectiva social: 6) modernização do sistema de prazo de validade e adoção do “Best Before”; 7) venda social e doação de alimentos a grupos populacionais vulneráveis; 8) geração de primeiro emprego e renda
Dois objetivos na perspectiva de governança: 9) adoção das melhores práticas de governança familiar e corporativa; 10) diversidade de gênero, raça, religião, etária e deficiências.
COMPROMISSO DIÁRIO
Em Esteio, a UnidaSul lançou o seu primeiro Relatório de Sustentabilidade, referente a 2024. Elaborado com apoio da consultoria Martinelli e alinhado a normas internacionais, o documento consolida indicadores ESG, abrangendo operações em 34 lojas Rissul, 13 Macromix, centro de distribuição, atacado, grãos, processados, panificação e açougue. "A sustentabilidade já faz parte da nossa forma de gerir. É um compromisso diário que guia decisões, orienta investimentos e fortalece a relação de confiança com colaboradores, clientes e comunidades", afirma Adilson Neuhaus, diretor administrativo da UnidaSul.
O relatório serve como prestação de contas a acionistas, fornecedores, colaboradores e sociedade, além de roteiro estratégico para avanços futuros. Com faturamento de R$ 3,5 bilhões e EBITDA de R$ 257 milhões em 2024, a holding – presente em 24 cidades gaúchas – reafirma transparência em um ecossistema que inclui varejo, atacarejo, distribuição e logística.
No pilar social, a empresa de 7,5 mil colaboradores – incluindo 800 novos empregos e 2,8 mil promoções internas –, investiu 67,2 mil horas em treinamentos, alta de 58% ante 2023. Doações somaram R$ 618 mil via projetos como Troco Solidário (mais de R$ 1 milhão arrecadados historicamente), Troca de Carinho (atendendo 30 entidades) e Gente Unida, que promove diversidade racial e religiosa. "Vamos chegar a 8 mil funcionários e precisamos de cuidado especial com pessoas", destaca Neuhaus.
No pilar Ambiental, foram instalados 11,2 mil módulos solares geram 450 MWh/mês, com pilotos em três lojas e expansão planejada. A reciclagem de materiais atingiu 2,8 mil toneladas, principalmente caixas de papelão recolhidas das unidades e processadas por parceiros especializados. No pilar de Governança, a empresa criou sete comitês corporativos, incluindo o comitê de ESG, garantindo pluralidade com conselheiro externo e reuniões mensais. Há comitês de finanças, auditoria, riscos, inovação e pessoas.
Entre 2025 e 2028, R$ 410 milhões serão investidos em novas lojas e revitalizações sustentáveis, com pontos de recarga para veículos elétricos e rastreabilidade em carnes e FLV. "Dados mais consolidados de economia e resultados estarão em nosso relatório no ano que vem. Até o pequeno varejista organiza iniciativas e metas que impactam resultados", explica Neuhaus.
METAS TRAÇADAS
O Grupo Carrefour Brasil avança na agenda ESG com três pilares estratégicos: combater fome e desigualdades, promover inclusão e diversidade, e proteger o planeta e a biodiversidade. No front social, o grupo doou 4,5 mil toneladas de alimentos a comunidades vulneráveis e treinou mais de 124 mil colaboradores em letramento racial. Na equidade de liderança, já são 36% de mulheres (a meta é 40%) e 43% de pessoas negras. 5% das vagas são reservadas a pessoas com deficiência. Todas as lojas Atacadão, Carrefour e Sam's Club oferecem Wi-Fi gratuito, impulsionando a inclusão digital. As doações de alimentos alcançarão 10 mil toneladas até 2026. Anualmente, 5% de vagas são destinadas para pessoas com deficiência.
Ambientalmente, o Carrefour monitora 100% dos fornecedores de carne bovina pela Plataforma de Pecuária Sustentável, zerando riscos de desmatamento. Em 2023, 26,4% da energia veio de fontes renováveis e foram adquiridos 24 mil créditos de carbono – somando 86 mil desde 2020. A economia circular ganha força com logística reversa de eletrônicos, pilhas e óleo, além de redução no desperdício alimentar. Até o final de 2025, embalagens de marcas próprias serão 100% recicláveis ou compostáveis, com 57% de resíduos totais recuperados e 100% dos fornecedores de carne monitorados. Outra meta do grupo é ter 1,4 milhão de produtos sustentáveis certificados até 2026. Na descarbonização, promete cortar 50% das emissões (escopos 1 e 2) até 2030 e 70% até 2040.
O Carrefour é avaliado por entidades globais que atuam como fiscalizadoras independentes, fornecendo scores públicos baseados em dados auto-reportados e verificações. O Sustainalytics classifica o gerenciamento de riscos ESG do Carrefour SA como "Strong" (forte).
PRÊMIO POR AVANÇO
No Supermago, rede porto-alegrense de supermercados, a jornada ESG avança por etapas práticas, com governança como pilar atual e estratégia integrada no horizonte. “Uma estratégia completa de ESG é um passo para o futuro”, afirma Patrícia Machado, diretora da empresa. Hoje, o foco recai em equidade, integridade, transparência e responsabilidade corporativa, envolvendo todos os setores. “A empresa só prospera sendo transparente com nossos 3 Reis Magos: colaborador, fornecedor e cliente”, define.
Destaque recente foi o Prêmio Automação GS1 Brasil 2024, conquistado pela solução de rastreabilidade com código 2D – a primeira em supermercados no país. Desenvolvida com Telecon Sistemas e Urano Balanças, a tecnologia elimina reembalagens diárias de produtos para troca de etiquetas de preço. “Perdíamos três dias por mês só reembalando”, revela Patrícia. Agora, a pesagem automática atualiza estoque em tempo real, informando quantidades e validades. Resultado: menos rupturas, zero produtos vencidos nas gôndolas e redução drástica de desperdício. No PDV, o sistema bloqueia itens fora da validade, mesmo etiquetados com QR code. “Ganhamos eficiência operacional e cortamos emissões ao minimizar descarte e embalagens”, resume. A inovação também impacta a cadeia de suprimentos, otimizando reposições e evitando excessos. “É ESG na prática, sem discurso vazio”, observa a gestora.
Na Agas (Associação Gaúcha de Supermercados), Patrícia integra o núcleo Agas Mulher, que agora prioriza sustentabilidade. “Até então, não havia um grupo dedicado ao tema”, explica. O objetivo: mapear cases reais de supermercados gaúchos que preservem recursos naturais, reduzam desperdício de alimentos, promovam bem-estar e igualdade, sem comprometer viabilidade econômica. “Buscamos soluções criativas e acessíveis para replicar entre os associados”, conclui. Do código 2D à governança transparente, o Supermago mostra que ESG começa pequeno – e cresce com resultados mensuráveis.
CRÍTICAS MAIS PREVALENTES
O greenwashing é o principal alvo de críticas, representando até 48% dos casos em análises de produtos e relatórios. Ele ocorre quando empresas exageram conquistas ESG para atrair investidores ou consumidores, sem ações reais, o que erode a confiança e pode até aumentar riscos financeiros. Uma pesquisa da PwC Global Investors, de 2023, mostrou que 98% dos investidores brasileiros (e 94% globalmente) acreditam que relatórios de sustentabilidade contêm “lavagem verde”, com informações não comprovadas.
Um estudo do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) analisou 509 produtos de higiene, limpeza e utilidades domésticas em supermercados brasileiros e concluiu que 48% dos rótulos apresentavam greenwashing, principalmente por falta de comprovação de alegações ambientais. Outra pesquisa feita para o Google Cloud apontou que 29% de 1.500 CEOs globais admitem usar sustentabilidade como "truque de relações públicas". 60% das empresas brasileiras relatam práticas ESG, mas só 29% têm auditoria externa.
Na área de governança a crítica mais presente é o utopismo, uma idealização de que a empresa cujo quadro representa fielmente os extratos da população vai ter desempenho melhor. Um estudo publicado na Strategic Management Journal (uma renomada revista acadêmica), analisou 500 empresas e encontrou que a diversidade na liderança explica apenas cerca de 5% da variação no desempenho financeiro. Isso significa que 95% do sucesso (ou fracasso) de uma empresa é determinado por outros fatores. Forçar percentuais paritários não garante prosperidade se a empresa tiver problemas estruturais, como má gestão ou falta de inovação. Os resultados foram replicados pelo Journal of Management Studies em outro estudo com 200 empresas.
FALTA DE CONHECIMENTO
A pesquisa “Data-Leaders ESG”, realizada no ano passado pela empresa Data-Makers, ouviu 170 líderes de negócios em todo o Brasil para falar sobre as práticas sustentáveis nas empresas. Os entrevistados relataram que a principal questão que impede a adoção de ESG nas organizações são, por ordem: a falta de conhecimento (49%) e a pressão por resultados de curto prazo (48%). Outros problemas envolvem a falta de profissionais preparados (46%), falta de prioridade ao tema (45%) e falta de comprometimento da liderança (41%). As lideranças apontaram ainda a ausência de dados (38%), KPIs (indicadores-chave de performance) claros (37%) e benchmarks (32%) como fatores limitantes.
BOX Quais são os desafios relacionados ao ESG?
- Inexistência de um modelo geral, sendo preciso ajustar as práticas de ESG à realidade de cada empresa e criar uma agenda de implementação;
- Necessidade de conscientização de toda a equipe, partindo-se dos líderes de alto nível, de modo que "comprem" e adotem a filosofia;
- Essencialidade de deixar claro, dentro da própria empresa, que ESG não é uma ação de marketing, porém uma iniciativa de mudanças reais e profundas dentro da organização.
