Brasil não dá previsibilidade ao empresário
A senhora foi a primeira mulher a presidir a Federasul, em 2016, e agora preside o Conselho Estadual da Mulher Empresária. Quais lições têm passado às mulheres nas palestras e eventos em que comparece?
Eu iniciei no associativismo em 2002, tenho uma longa caminhada. Há um tripé que sustenta minha vida: família, empreendorismo e associativismo. Ao longo desse tempo entendi a força que tem o trabalho coletivo e as transformações econômicas e sociais que conseguimos fazer a partir de uma entidade da classe. Entrei na Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Canoas (CICS) quando não havia mulheres lá, existia ainda preconceito em relação à participação feminina, tanto nos negócios quanto nos centros de poder. Fui diretora, vice-presidente e cheguei à presidência. Entendia que precisávamos de mais participação feminina para oferecer um complemento necessário nas relações. Mas, à medida em que convidava empreendedoras para participar da CICS, via que elas chegavam inseguras. Foi aí que surge o primeiro Núcleo de Mulheres Empreendedoras. Queria que elas conhecessem o ambiente associativo com segurança. Elas começaram a se desenvolver pessoalmente e profissionalmente ali.
Qual é o seu conceito de empoderamento?
O que é empoderamento para mim: coragem com ação. É a mulher consegue se colocar diante das questões econômicas e sociais não atrás nem à frente do homem, mas ao seu lado. Nós somos os resultados de nossas escolhas. As mulheres precisam buscar significado em suas vidas. A mãe, a esposa, a profissional, somos multitarefas, e muitas vezes é difícil equilibrá-las. Dar o peso certo a cada uma no momento certo, estar inteira em todos os momentos. Junto conosco vem toda uma família e uma construção social que fazemos. Somos a primeira geração de mulheres a se dar conta do poder que tem. É uma grande responsabilidade. Estamos construindo desenvolvimento de nossas comunidades e do RS.
Você mencionou que investiu bastante no interior do estado e na inclusão de mais mulheres e empresários regionais na Federasul. Como foi o processo que levou à sua indicação e, principalmente, à histórica eleição para a presidência da entidade?
Depois disso vou à Federasul, investi muito no interior do Estado, percebendo que a entidade poderia crescer mais a partir dessas duas frentes, agregando mais as mulheres e empresários do interior. A força econômica do RS vem do interior, a força política está na capital. Mudamos o estatuto da Federasul para que um empresário do interior possa assumir a presidência da Federasul e o grupo indica meu nome. Quando meu nome foi indicado, um senhor à minha frente diz que nenhuma mulher será presidente da Federasul. Estávamos vivendo crise política e institucional do país com o impeachment da Dilma. Ele me convidou então a ser vice-presidente de sua chapa e eu lhe devolvi o convite para que ele viesse a ser meu vice. O pessoal queria evitar uma eleição, que nunca havia ocorrido em 87 anos (sempre havia sido indicação). Mas não houve como chegar a um acordo e fiz o enfrentamento. Vencemos a eleição, foi muito importante a minha vitória. Ressalto o apoio que recebi de muitos homens nesse momento, foi um trabalho colaborativo. A entidade estava desestruturada, com dificuldades financeiras. Tivemos de sanar as dívidas, construímos uma sede nova, ampliamos número de associados. Tudo isso partiu de uma mulher, não foi uma questão de gênero, mas de perfil, de disposição.
Quais são os principais desafios ao associativismo empresarial no RS?
Em primeiro lugar, é um trabalho voluntário. Você precisa encontrar pessoas dispostas a participar de uma entidade de forma voluntária. Federasul e Agas não são entidades sindicais compulsórias, onde empresários tem que participar obrigatoriamente. Os empresários precisam deixar seus negócios por um tempo e se dedicar de forma voluntária a uma causa maior. Eles percebem valor nas entidades a partir de resultados. Hoje não temos 19,5% de ICMS no Estado, temos 17%, porque as entidades se uniram para que não houvesse tal aumento proposto. Isso atrai associados. Precisamos trazer benefício real não apenas aos empresários, mas algo que se reflita na sociedade. O que percebemos? A dona Maria, o seu João, eles precisam ser contemplados nessas políticas públicas que dizem respeito ao empreendedorismo e à geração de riqueza. Precisamos trazer este olhar mais social. As entidades também precisam demonstrar que veem seus associados, ainda que sejam pequenos e estejam distantes. O empresário vem porque a entidade foi até ele.
As articulações de interesses entre as entidades estão melhorando?
Sem dúvida. Hoje temos um bloco empresarial que entendeu o valor dessa união. A Agas levanta muitas bandeiras que a Federasul e outras entidades percebem como questões que lhes afetam também. Daí que todos abraçam essas causas. Os legisladores estão se mostrando sensíveis às reivindicações econômicas, não importando o viés político. Eles percebem o resultado social disso. Empresário onerado contrata menos, é menos emprego e menos renda, e, portanto, menos dinheiro circulando e menos arrecadação de impostos. O econômico precisa existir para que o social prospere. Os deputados são generalistas, eles entendem um pouco de tudo. É nosso papel, como especialistas, ir lá e municiá-los com informações para que eles possam identificar necessidades e criar políticas. Isso está fluindo bem atualmente. Claro que surgem divergências, mas há espaço de diálogo. Estamos amadurecendo. O associativismo é a demonstração do coletivo. Por exemplo, represento a Urano e fui defensora do fim do imposto de fronteira, que trazia benefícios para nós. Mas o comércio saía prejudicado, numa escala muito maior em que nós éramos beneficiados.
Há algumas queixas constantes do empresariado brasileiro. A carga de impostos, a burocracia, o tamanho do estado. Não importa o governo, essas queixas permanecem. Temos empresários que confiam em mudanças e empresários mais desesperançosos em ações do governo. Qual a sua posição?
Na Federasul, criamos agora o Manifesto do Empreendedor Gaúcho. Foi um trabalho de três anos, percorrendo o interior do RS. Identificamos e elencamos diversas propostas daquilo que é necessário fazer para conseguirmos superar as adversidades e termos uma visão próspera de futuro. Não só para o empresário, mas para a sociedade. Este documento é um norte para os governantes. Lá manifestamos uma visão muito ampla sobre diversos setores e bem fundamentado. O foco é a geração de riqueza que possibilitem melhores serviços por parte do Estado. Estamos entregando este material aos pré-candidatos ao governo gaúcho.
Apesar desse esforço propositivo da Federasul, muitos empresários ainda se sentem distantes do poder e veem pouca disposição dos políticos para mudanças reais. O que você observa sobre o atual cenário político e quais reformas considera mais urgentes para virar esse jogo?
Vemos que o foco deles está muito em como vencer. A propósito, é bastante comum que parlamentares construam seus mandatos com vistas à reeleição. Poucos são aqueles que se dispõem a cumprir um mandato, fazer uma entrega, e voltar ao que faziam antes. A maioria quer se manter no centro de poder. Percebemos que é muito difícil colocar pessoas novas nessas posições, pela visibilidade que aqueles que estão nos cargos possuem. Eles já saem na frente dentro dos próprios partidos. Sabemos de empreendedores dispostos a entrar na política, mas há uma dificuldade de acesso a essas cadeiras. No Executivo, também há uma luta por manutenção no poder. O que é mais necessário hoje? A Reforma Administrativa. O Brasil não suporta mais o peso do Estado drenando verbas que poderiam estar na saúde, na educação e na segurança. Muitos recursos hoje mantêm benefícios de poucos em detrimento de muitos. Temos supersalários, um INSS ineficiente. Estamos agora vivendo uma Reforma Tributária, não está consolidado todo este trabalho. Há um limbo entre o que o governo deseja e o que o empresário espera. Há muita incerteza. Aqui no BR muitos planejamentos podem ir por água abaixo por novas normas e legislações. O Brasil não dá previsibilidade ao empresário. É um problema a quem quer produzir e gerar renda. Muitos acabam se endividando no caminho e até fecham as portas. Imagina a realidade de um supermercado, onde as margens de lucro são pequenas. Qualquer solavanco repercute no resultado. Há uma cadeia que nos envolve e todas as engrenagens precisam estar bem para que o fluxo aconteça.
Há algum diferencial competitivo nas empresas gaúchas que possa estar ligado à nossa cultura?
Sim, especialmente naquilo que falamos do “fio do bigode”. As relações são muito sensíveis a gente vê que questões de valores e princípios estão em desuso. Quando olhamos para uma crise como a do Banco Master, vemos que valores e princípios foram corrompidos. Desde empresários a servidores, está difícil olhar para o futuro e enxergar uma esperança. Aqui no RS, todavia, vejo que os políticos são mais honestos. Não vemos grandes escândalos. Podemos ter grandes divergências na forma de fazer política, na forma de pensar. Mas dentro de valores e princípios, conseguimos ter um diferencial. Isso vem da nossa cultura. Valorizamos muito o trabalho, sem querer tirar proveito. Trabalho como caminho para uma vida digna para sua família. Claro que há pessoas que buscam benefícios sem necessidade efetiva, mas isso sempre vai haver numa sociedade tão plural.
Qual a sua ligação com os supermercados, tanto como consumidora quanto como empresária?
Os supermercados são nossos clientes, já que fabricamos balanças. Temos trabalhado em inovação para que o serviço dos supermercados fique mais eficiente a partir dos equipamentos de pesagem. Como consumidora, percebo que há um movimento de investimento em lojas menores e mais próximas. O supermercado está vindo até nós. Eu acabo indo na loja que tem o melhor serviço. Se toda loja tem o feijão e arroz, isso não é mais diferencial. A forma como serei atendida conta mais, a criação de vínculo. Agilidade também é importante: tempo é dinheiro. Eu ainda prefiro ir à loja física, é um programa de domingo ou uma visita noturna, quando há menos gente. Me encanta olhar as gôndolas, mas também encontrar pessoas. Os supermercados estão se qualificando bastante, a concorrência faz isso.
