Café nosso de cada dia
Presente em momentos de conquistas e de crise, ninguém deixa de consumir o café, um dos mais importantes itens da cesta do consumidor. Tanto que é considerado um produto com demanda “inelástica” no curto prazo: em momentos de crise as pessoas não deixam de tomar, apenas trocam a marca cara por uma mais barata. Isso garante que o fluxo de dinheiro no setor nunca pare. E mais: é a segunda bebida mais tomada no mundo, ficando atrás apenas da água pura. Em termos de volume diário, estimativas de mercado apontam que a humanidade consome entre 2,25 e 2,3 bilhões de xícaras de café todos os dias.
Conhecido por dar a energia necessária antes de um dia de trabalho, ele também é motivo para uma pausa. No entorno do “pretinho básico” há sempre um convite para uma conversa, um papo entre amigos, um encontro romântico ou uma reunião de negócios. É um pretexto para as conexões humanas, embora há quem prefira consumir o produto no silêncio do lar.
A descoberta do café é cercada de lendas e teorias, mas o certo é que ele conquistou o paladar da população no mundo inteiro. Originário das florestas da Etiópia e popularizado no mundo árabe antes de conquistar a Europa e as Américas, o grão evoluiu de um mero “estimulante” para um produto de apreciação sensorial complexa.
No Brasil, o sistema bancário moderno, a malha ferroviária e o próprio Porto de Santos foram criados no século XIX e início do século XX pelo e para o café. Também foi o dinheiro proveniente do café que financiou a primeira industrialização brasileira.
Hoje o café é cultivado em mais de 70 países, e o Brasil é um dos maiores exportadores (e consumidores) do grão. Porém, ainda importa ele no formato encapsulado, mas o cenário já está mudando depois da quebra de patente da cápsula, em 2012, e do investimento de fábricas voltadas a este nicho no Brasil.
Importância econômica
Para entender sobre o café, é essencial diferenciar entre o arábica (Coffea arabica) e o robusta (Coffea canephora). O primeiro remete às cafeterias gourmets e a um produto premium, e alia doçura com acidez equilibrada e notas aromáticas que variam do floral ao frutado. O segundo provém de uma planta mais rústica, resistente às intempéries do clima e a pragas, contendo quase o dobro de cafeína do primeiro. É base ideal para cafés solúveis e blends industriais robustos.
No mercado financeiro, o café é classificado como uma soft commodity (uma mercadoria agrícola primária padronizada). Seu preço é determinado pela lei da oferta e demanda. Assim como o petróleo, o café global é cotado em dólares americanos. Se o dólar sobe em relação ao Real, o produtor brasileiro ganha mais dinheiro em moeda local pelo mesmo saco de café vendido. Isso impulsiona as exportações brasileiras. O café Arábica é negociado na ICE (Intercontinental Exchange) em Nova York, enquanto o Robusta/Conilon é cotado na Bolsa de Londres.
O preço do café que você vai beber no final do ano está sendo decidido agora nas bolsas. Torrefadoras e produtores usam os “mercados futuros” para travar os preços e se proteger (fazer hedge) contra geadas, secas ou excesso de oferta.
Dados de mercado
Segundo a Organização Internacional do Café (OIC), o consumo mundial de café gira hoje na casa de 177 a 180 milhões de sacas de 60 kg ao ano. Dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) para o ano de 2025 mostram que o mercado interno absorveu cerca de 21,4 milhões de sacas de 60 kg. Apesar das oscilações de preços no período, o faturamento industrial do setor ultrapassou a marca histórica de R$ 46 bilhões.
Estudos da Abic apontam que a média de consumo per capita no país é de aproximadamente 1,4 mil xícaras de café por ano. Entre as tendências despontam os Cafés Gelados (Cold Brew e RTD): o café gelado e as bebidas prontas para beber ganham força no verão e conquistam o paladar das gerações mais jovens.
O Brasil é líder em exportação, e no fechamento de 2025, o país vivenciou um fenômeno econômico, segundo dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) e do sistema Comex Stat (do governo federal). Impulsionado pela forte valorização internacional da commodity e pela alta qualidade do grão brasileiro, o país bateu seu recorde histórico de faturamento, mesmo enviando menos sacas ao exterior. A safra de 2025 sofreu o impacto de intempéries climáticas. No entanto, o preço médio da saca disparou globalmente, compensando a queda no volume e injetando mais de R$ 80 bilhões na economia brasileira.
Alemanha, EUA e Itália são os principais compradores do grão brasileiro. Japão e China registraram crescimentos expressivos nas compras (beirando os 20% de alta), mostrando que o hábito de beber café está se consolidando fortemente no Oriente. No recorte por tipo de grão, o Café Arábica segue como o carro-chefe das exportações.
Influência da altitude do local de origem
Quanto mais alto o pé de café, mais complexa é a xícara. Esta é a regra de ouro para uma gôndola de alta performance quando o foco são os cafés especiais. A pressão e a temperatura das montanhas moldam o sabor que o seu cliente procura. Quanto maior a altitude (acima de 1.200 metros), mais premium será o café: corpo delicado, aroma floral ou frutado, acidez cítrica, doçura alta. Já o café cultivado em baixas altitudes (abaixo de 800 metros) terá um corpo pesado, baixa acidez, notas terrosas. Prato cheio para o consumidor de café tradicional ou extraforte.
Aqui no Brasil, regiões como a Mantiqueira de Minas, Montanhas do Espírito Santo e o Planalto de Vitória da Conquista são famosas pelas altitudes que entregam cafés premiados.
Para melhor gestão da categoria convém entender também um pouco sobre os selos fornecidos à esta indústria, para que seja possível orientar o cliente que se interessa em adentrar no mundo dos cafés especiais. Os dois selos de maior referência no mundo justificam o ticket médio elevado na gôndola. O Rainforest Alliance, que leva um sapo na embalagem, é sinônimo de garantia ambiental e social. Produtos com este selo são certificados por seguirem normas rígidas para proteger a biodiversidade (preservação de florestas e nascentes) e garantir que os trabalhadores tenham condições dignas, equipamentos de segurança, além de salários justos. São produtos de agricultura regenerativa.
O outro selo é o Fairtrade (Comércio Justo), e se refere à justiça econômica e ao equilíbrio de poder na cadeia de suprimentos. Ele garante que o pequeno produtor recebeu um preço mínimo justo pelo café, protegendo-o das quedas bruscas nas bolsas de valores. Além disso, as cooperativas recebem um “Prêmio Fairtrade”, um valor extra que deve ser investido obrigatoriamente em projetos da comunidade (escolas, hospitais ou melhoria técnica da lavoura).
Prós e contras na saúde
O café é sem dúvida uma das substâncias mais estudadas cientificamente no mundo da medicina. Há quem ame e quem odeie. Mas o fato é que hoje ele é mais visto como aliado do que como vilão da saúde. O segredo está na dose: é preciso ser consumido com moderação.
Basicamente, a cafeína bloqueia os efeitos de um neurotransmissor do cérebro (adenosina) que nos faz sentir cansados. Por isso nos faz tão bem para nos mantermos acordados. Também libera dopamina, que nos dá sensação de bem-estar. Em demasia, porém, pode criar ansiedade, náusea (se tomado de estômago vazio), aumentar a frequência cardíaca e até contribuir para depressão em algumas pessoas.
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Opções para todos os gostos
Café torrado e moído – Líder absoluto em vendas, a categoria de Tradicional e Extraforte é responsável por cerca de 80% a 85% do market share nas gôndolas brasileiras. Comumente vendido em sacos de 250g e 500g (almofada ou vácuo), o consumidor brasileiro associa a torra escura (mais amarga) a um café que “rende mais” na garrafa térmica.
Café solúvel – O famoso café instantâneo leva a segunda posição na preferência de consumo nos lares brasileiros. O Brasil é o maior exportador mundial desta variedade. Vendido em vidros ou sachês (refil), tem se destacado o crescimento dos “solúveis premium” (liofilizados), que preservam melhor o sabor, permitindo margens maiores que o solúvel em pó tradicional (spray-dried).
Cápsulas – As monodoses, embora representem um volume menor em toneladas, são campeãs em faturamento por quilo. O Brasil já é um dos maiores mercados de cápsulas do mundo. Dados da Nielsen indicam que este segmento cresce dois dígitos ao ano, impulsionado pela “conveniência de luxo”. Há várias marcas diferentes, com sistemas compatíveis com o padrão de máquinas Nespresso (alumínio) ou Dolce Gusto.
Cafés “superiores” e “gourmet” (moídos) – Este segmento têm atraído clientes do café tradicional que ainda não possuem máquinas de cápsula. Trata-se do café 100% Arábica, com moagem média e selo de qualidade superior da ABIC. O cliente aceita pagar entre 30% a 50% a mais que o preço do Tradicional.
Café em grãos – Antes um nicho exclusivamente B2B (restaurantes), passou ao consumo doméstico, com boa saída em supermercados de vizinhança e canais premium. Ele vem em embalagens de 500g e 1kg, perfeito para quem busca o frescor máximo da moagem na hora.
A venda de máquinas automáticas de café expresso para residências também aumentou.
Cafés prontos para beber (Ready-To-Drink – RTD) e cafés gelados – Segundo a NielsenIQ, a categoria tem registrado crescimentos anuais superiores a 20% em valor. Enquanto o consumidor 50+ prefere o café quente e coado, o consumidor abaixo de 30 anos vê o café gelado como alternativa energética e saudável aos refrigerantes. Os cafés a base de leite podem ficar posicionados próximos aos iogurtes e leites saborizados. Já os cold brew ou black coffee são os cafés puros, extraídos a frio, menos ácidos, naturalmente mais doce que têm conquistado a geração fitness. Podem ser posicionados perto dos energéticos e isotônicos. Não utilize apenas a gôndola seca, aposte no expositor refrigerado.
