Cenário desafiador
O setor supermercadista gaúcho encerrou o primeiro trimestre de 2026 com resultados positivos, mas em ritmo de desaceleração: o crescimento do comércio foi de 1.8%, considerando os últimos 12 meses, e de 3% no nicho de hipermercados e supermercados. O desempenho, embora represente uma retração em relação aos índices de 2025, demonstra a resiliência do segmento diante de um cenário macroeconômico complexo, marcado por juros elevados, pressões inflacionárias, endividamento das famílias e, mais recentemente, pela escalada de tensões no Oriente Médio.
De acordo com os relatórios mensais elaborados pela Bateleur e pelo economista da Agas, Fernando Marchet, este movimento de vendas apresentou trajetória descendente ao longo do trimestre. Em janeiro, o crescimento foi de 3,6%, recuando para 3,3% em fevereiro e fechando março com 3%. A desaceleração reflete o esgotamento do modelo de crescimento baseado em estímulos fiscais e o impacto do alto comprometimento da renda das famílias com dívidas.
Variação controlada pelas commodities agrícolas
Um dos principais fatores para o setor no período foi a continuidade da tendência de queda nos preços das commodities agrícolas. A soja, fundamental na cadeia de proteínas, acumulou retração de 12% no trimestre. O milho, insumo essencial para avicultura e suinocultura, manteve-se estável, favorecendo a competitividade das carnes brancas.
O arroz, produto de grande relevância na cesta básica gaúcha, permaneceu com cotações deprimidas, reflexo dos elevados estoques e da redução do consumo nacional. Para o trigo, a ampla oferta global manteve os preços, beneficiando toda a cadeia de panificação.
Esse cenário nos grãos contribuiu para que os preços dos alimentos apresentassem variação controlada. O grupo “alimentação no domicílio” registrou alta de apenas 0,23% em fevereiro, com destaque para a deflação em cereais, óleos e gorduras, compensando parcialmente os aumentos em hortaliças e proteínas industrializadas.
Disparada do petróleo acende alerta
O principal fator de preocupação para o setor emergiu em março, com a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã. O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã compromete o tráfego de 20% de todo o fornecimento mundial de petróleo e provocou disparada de 62% no preço do barril, que atingiu US$ 101,60. O movimento gerou reajuste imediato nos combustíveis pela Petrobras, com impacto direto nos custos logísticos.
Para amenizar a pressão inflacionária, o governo federal anunciou a isenção de PIS e Cofins sobre o óleo diesel. Ainda assim, os economistas projetam que o choque do petróleo pode adicionar até 1,3 ponto percentual ao IPCA de 2026, comprometendo o poder de compra das famílias e pressionando as vendas do varejo alimentar.
Inflação desacelera
O IPCA de fevereiro fechou com alta acumulada de 3,81% em 12 meses, o menor patamar desde 2020. A desaceleração foi puxada principalmente pela deflação no atacado, com o IGP-M registrando retração de 1,3% no período. Entretanto, o IPCA permanece distante da meta de 3% estabelecida pelo Banco Central. O grupo de educação respondeu por cerca de metade do aumento do índice no último mês.
A inflação de serviços manteve-se resiliente, refletindo o mercado de trabalho ainda aquecido. A taxa de desemprego atingiu 5,1% em dezembro, menor nível da série histórica, sustentando a massa de rendimentos e o consumo de bens não duráveis, categoria que mais beneficia os supermercados.
A manutenção da taxa Selic em 15% ao ano durante janeiro e fevereiro, com corte tímido de 0,25 ponto percentual em março, continuou restringindo o acesso ao crédito. O comprometimento da renda das famílias com dívidas alcançou 29,2%, limitando espaço para expansão do consumo.
Esse cenário impactou as vendas de bens duráveis nos supermercados. Categorias como eletrodomésticos e utensílios domésticos apresentaram retração superior a 10% no trimestre. Em contrapartida, produtos de consumo recorrente mantiveram desempenho positivo, com destaque para artigos de higiene pessoal e limpeza.
Perspectivas cautelosas para o segundo trimestre
As projeções dos economistas da Agas indicam continuidade do crescimento moderado para o setor em âmbito nacional, com expansão esperada de 2,4% para o ano de 2026. O cenário base considera a manutenção do mercado de trabalho aquecido e, no caso do Rio Grande do Sul, a recuperação da safra agrícola, estimada em 37 milhões de toneladas de grãos.
Os principais riscos mapeados incluem a persistência das tensões geopolíticas e seus efeitos sobre os custos de energia, logística, o ritmo de flexibilização monetária pelo Banco Central e a dinâmica fiscal do governo em ano eleitoral. A proximidade das eleições presidenciais adiciona incerteza ao ambiente de negócios, com potencial para medidas populistas que afetem a inflação.
Para o setor supermercadista, a entidade avalia que a gestão de estoques e margens é um dos pontos de atenção, aproveitando o cenário ainda favorável nas commodities agrícolas para compensar as pressões de custos em energia e logística. A manutenção do foco em produtos de primeira necessidade e o desenvolvimento de ações promocionais direcionadas devem sustentar o crescimento em um ambiente de consumo mais seletivo.
