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Os segredos da produtividade

Especial
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Em 2026, o varejo supermercadista brasileiro nunca se teve tanto acesso à tecnologia, dados e ferramentas de gestão, mas a margem de lucro continua apertada e a sensação de sobrecarga é grande. Com faturamento acima de R$ 1,14 trilhão em 2025 (Abras), o setor vê margens pressionadas pela inflação de custos, escassez de mão de obra qualificada e concorrência feroz entre lojas físicas, delivery e gigantes do e-commerce. Diante desse cenário, os supermercadistas mais bem-sucedidos descobriram que produtividade já não se resume a “fazer mais com menos”. Trata-se de fazer o certo, no momento certo, combinando inteligência artificial, gestão de pessoas, redução agressiva de perdas e foco estratégico. São esses os quatro segredos que estão separando os líderes de mercado dos que apenas sobrevivem.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Quando olhamos para trás, há cinco ou dez anos, a forma como os supermercados pensavam e mediam produtividade era bem diferente da realidade de 2026. Naquela época, o principal objetivo era “fazer mais com menos”: equipes enxutas, reposição veloz e alto volume de vendas. Hoje, segundo Cristovan Luiz da Costa, especialista em Inteligência Artificial da Sysmo Sistemas, o conceito evoluiu de forma significativa: “Produtividade deixou de ser apenas correr mais. Passou a ser errar menos.”

O setor supermercadista trabalha hoje com milhares de variáveis ao mesmo tempo: preços, margens, rupturas de estoque, concorrência acirrada, sazonalidade, clima, eventos locais e o comportamento cada vez mais imprevisível do consumidor. Tomar decisões baseadas apenas na intuição ou em planilhas manuais se tornou insustentável. Os supermercados que mais evoluíram não foram necessariamente os maiores, mas aqueles que aprenderam a transformar grandes volumes de informação em ações rápidas e assertivas.

É nesse contexto que a Inteligência Artificial surge como o novo cérebro das operações. “A IA analisa volumes enormes de dados em segundos e transforma isso em apoio concreto para a decisão”, explica. Todavia, as empresas vivenciam um paradoxo destacado na NRF 2026: a ambição em torno da IA cresce mais rápido do que a capacidade real de implementá-la. O TCS Global Retail Outlook 2026, baseado em entrevistas com mais de 800 executivos de varejo em 18 países, mostrou que a maioria das empresas ainda usa a tecnologia de forma reativa, fragmentada e superficial.

MAIS RESULTADO, MENOS TRABALHO

“Existe uma ordem que muita gente ignora”, ressalta Costa. “Primeiro, a IA precisa aprender o negócio de verdade, com histórico real, dados organizados e processos estruturados. Depois ela ajuda a decidir. Só então faz sentido ela conversar com você. Pular essa sequência é o erro mais comum.” Na Sysmo, os resultados mais impactantes aparecem especialmente na previsão de demanda e na precificação dinâmica.

 O módulo Super Pricing utiliza IA para analisar elasticidade de preço, margem real de cada item, concorrência e comportamento de vendas, gerando sugestões assertivas de reajustes. Uma rede com 4 lojas e mais de 85 PDVs, que utiliza a solução há cerca de 20 meses, obteve um incremento superior a R$ 3,5 milhões no faturamento, com alta de 6,4%, além de aumento de mais de 3,78% na margem de contribuição. “A equipe trabalha menos horas e entrega um resultado financeiro melhor. Isso é produtividade no sentido mais concreto da palavra”, afirma.

Para Cristovan, o maior ganho da IA não é substituir pessoas, mas liberá-las para atividades de maior valor. “A automação assume tarefas repetitivas, operacionais e analíticas. Com os agentes de precificação, basta configurar padrões e tolerâncias, e a IA executa o trabalho. Assim, a equipe ganha agilidade para focar em decisões estratégicas.” Ele destaca ainda que o maior gargalo para escalar a Inteligência Artificial atualmente não é tecnológico, mas cultural. As empresas que avançam mais rápido são aquelas que redesenharam processos e criaram uma cultura onde os dados realmente orientam as decisões. A inteligência artificial veio para trazer mais agilidade, segurança e eficiência, desde que usada com dados organizados e visão estratégica.

GESTÃO DE PESSOAS

Enquanto a tecnologia se consolida como o novo cérebro das operações, Sílvia Sarmento, consultora e treinadora comportamental da Tchê Treinamentos, reforça que a produtividade nos supermercados de 2026 ainda depende, em grande medida, da qualidade da gestão de pessoas. E a forma como se gerenciam as equipes mudou significativamente nos últimos dez anos.

Há uma década, os treinamentos eram predominantemente técnicos, genéricos e baseados em metodologias tradicionais, muitas vezes desconectadas do dia a dia das lojas. Hoje, segundo Sílvia, esse modelo perdeu eficácia. Quanto mais os conteúdos são aproximados da realidade específica do supermercado e das demandas diárias das lideranças, maiores são o engajamento e os resultados concretos na operação. “O diferencial está em projetos de desenvolvimento personalizados, com começo, meio e fim, que combinam crescimento pessoal e técnico, em gestores preparados para extrair o melhor de suas equipes e em processos estruturados de escuta ativa e colaboração, que fortalecem o sentimento de pertencimento dos colaboradores”, diz.

Um dos maiores desafios enfrentados pelos supermercadistas atualmente, na avaliação de Sílvia, não é apenas o engajamento, mas principalmente a retenção de talentos: “O setor tem atraído cada vez menos candidatos. E, mesmo quando consegue contratar, muitas redes enfrentam dificuldade para manter essas pessoas”. Os motivos mais recorrentes incluem acolhimento inadequado, ausência de desenvolvimento contínuo, clima organizacional pesado em determinados setores e líderes despreparados para lidar com conflitos, integração e formação de novos colaboradores. No final, a retenção deixou de ser uma questão puramente salarial e passou a depender da experiência que o colaborador vive dentro da loja todos os dias.

PERTENCIMENTO

Para melhorar tanto a retenção quanto a produtividade, várias redes, especialmente no RS, têm obtido bons resultados com iniciativas práticas. Entre elas estão escalas com horários e folgas fixas, jornadas reduzidas de seis horas diárias para certos cargos, prêmio de assiduidade, vale-alimentação, refeitório com refeição completa, auxílio-educação, plano de saúde e programas de desenvolvimento. Mais do que a oferta isolada de benefícios, o que os colaboradores realmente valorizam é a previsibilidade, a qualidade de vida e a sensação genuína de que a empresa se preocupa com seu bem-estar.

A automação entra no negócio para eliminar tarefas repetitivas e de baixo valor percebido. Self-checkout, etiquetas eletrônicas e outras inovações executam em segundos processos que antes demandavam muito tempo e geravam mais erros. “Ela é uma auxiliar, liberando tempo precioso para o que realmente faz diferença no humano: atendimento consultivo, relacionamento e proximidade.

OLHO NOS INDICADORES

Para medir se a gestão de pessoas está de fato contribuindo para a produtividade, Sílvia recomenda acompanhar indicadores estratégicos como a taxa de rotatividade e absenteísmo, a assertividade nos processos seletivos, o tempo médio de retenção por setor, a frequência de feedbacks por colaborador, o índice de avaliações periódicas de desempenho e a regularidade de reuniões de liderança e alinhamentos setoriais. Esses números permitem uma leitura muito mais estratégica da saúde da operação.

Para Sílvia, o líder do futuro precisa ser obcecado por formar pessoas capazes de resolver problemas. Porque, embora tecnologia e processos sejam essenciais, é a qualidade da liderança que determina se uma equipe apenas cumpre tarefas ou se ela realmente entrega resultados extraordinários. Seu conselho mais repetido aos líderes de supermercados é direto: “Se você fizer tudo sozinho, sua equipe nunca aprenderá a fazer. Produtividade sem desenvolvimento de pessoas é missão impossível.” E completa com uma frase marcante: “Quem é bom em desculpas dificilmente será bom em resultados.”

PREVENÇÃO DE PERDAS

O controle de perdas é outro motor da produtividade no varejo. Quando a empresa reduz furtos, quebras, erros de estoque e rupturas, libera recursos que antes eram desperdiçados. Cada real economizado em perdas representa margem adicional que pode ser reinvestida em processos mais eficientes. Equipes de prevenção bem estruturadas permitem que os colaboradores foquem em atividades de valor, em vez de corrigir problemas constantes. A acuracidade de estoque elevada, resultado direto do bom controle de perdas, aumenta a velocidade de reposição e a qualidade do atendimento.

Menos tempo gasto em auditorias emergenciais e inventários corretivos significa mais horas dedicadas à venda e à operação fluida. A cultura de prevenção cria disciplina operacional, reduzindo retrabalho e elevando o desempenho geral da equipe. Tecnologias de monitoramento e análise de dados transformam o controle de perdas em inteligência que impulsiona decisões mais rápidas.

O presidente da Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe), Carlos Eduardo Santos, ressalta que investir em prevenção de perdas é uma das formas mais rápidas e eficientes de proteger margem, gerar caixa e sustentar o crescimento do varejo. “Prevenção de Perdas não é fiscalização. É cuidado com o negócio. É proteger o que sustenta a operação. É trabalhar junto com quem faz a loja acontecer.” Na última edição da Smart Market Abras, o índice de perdas foi transfigurado para índice de eficiência, ou seja, um índice de 2% começou a ser tratado como uma empresa com 98% de eficiência.

No dia 10 de junho, a Abrappe divulgará sua Pesquisa Anual de Perdas no Varejo. O setor de atacarejo é um dos segmentos mais preocupantes do último ano, impulsionado pela crescente demanda por conveniência e variedade, com a adição de novos serviços. Muitos começaram a incorporar quiosques de comidas prontas, serviços de delivery, áreas de autoatendimento e uma expansão da linha de produtos. Embora essas iniciativas tragam inovações e potencial de crescimento, também acarretam desafios operacionais que impactam o controle de perdas.

Pesquisa Abrappe de Perdas no Varejo BR 2025

Loja de vizinhança 3,30% (1,30% não identificadas/ 2% quebras)

Super convencional 2,79% (1,35%/1,44%)

Hipermercado 2,11% (0,82%/1,29%)

Atacarejo 1,85% (0,81%/1,04%)

Principais Causas: excesso de compras (26,7%), exposição de produto sem respeitar prazo de validade mais recente (primeiro que vence/primeiro que sai) 22,4%, excesso de produção (10%) e não retirada de produtos vencidos das prateleiras (9%).

Ruptura também é problema: comercial 7,8% (quando não se adquiriu itens na quantidade suficiente); operacional 5,1% (quando não estão à venda na loja ficando no estoque).

DESEMPENHO INDIVIDUAL

No bestseller A Única Coisa (2021), de Gary Keller e Jay Papasan, produtividade é o tema principal, com foco no indivíduo. Os autores sustentam que a produtividade extraordinária não vem de fazer mais, mas de fazer a coisa certa com foco total. O princípio central do livro é uma pergunta transformadora que todo empresário supermercadista deveria fazer diariamente: “Qual é a única coisa que eu posso fazer, de modo que, ao fazê-la, todo o resto se torne mais fácil ou desnecessário?” Esse é o coração da metodologia.

Keller e Papasan derrubam várias mentiras que sabotam a produtividade. Uma delas é a ideia de que “tudo importa igualmente”. Na prática, nem tudo tem o mesmo peso. Aplicando o Princípio 80/20 (Pareto), o empresário descobre que 20% de suas ações geram 80% dos resultados. No varejo, isso pode significar focar na redução de perdas no hortifruti, na capacitação de líderes de loja ou na implementação de precificação dinâmica com IA, em vez de tentar resolver dez problemas ao mesmo tempo.

O livro também combate o mito da multitarefa. “Você pode fazer duas coisas ao mesmo tempo, mas não consegue focar efetivamente em duas coisas ao mesmo tempo”, escrevem. Para o dono de supermercado, isso significa proteger blocos de tempo pela manhã para analisar números, planejar estratégia ou desenvolver a equipe, em vez de passar o dia apagando incêndios.

Keller e Papasan defendem ainda que disciplina não é o mais importante. O que realmente importa são hábitos. “As pessoas não decidem seu futuro. Elas decidem seus hábitos, e seus hábitos decidem seu futuro.” Como resume Gary Keller: “Resultados extraordinários são diretamente determinados por quão estreito você consegue fazer seu foco.”

Como colocar os segredos da produtividade em prática

Muitos supermercadistas leem boas ideias e depois têm dificuldade de transformá-las em ação. Para ajudar o leitor a sair do papel, reunimos o essencial de cada pilar:

Inteligência Artificial: Comece pequeno. Escolha um único processo (geralmente precificação ou previsão de demanda), organize os dados históricos e faça um piloto em uma categoria. Não precisa implementar tudo de uma vez, mas gerar o primeiro resultado concreto.

Gestão de Pessoas: Invista primeiro nos líderes. Um gerente bem formado multiplica o resultado de dezenas de colaboradores. Foque em horários previsíveis, feedback frequente e desenvolvimento contínuo. Retenção hoje se conquista no dia a dia, não só no contracheque.

Prevenção de Perdas: Trate perdas como prioridade estratégica, e não apenas como “fiscalização”. Monitore os grandes vilões (excesso de compra, giro lento e validade) toda semana. Cada ponto percentual reduzido vai direto para o lucro.

Foco Estratégico: Adote o hábito diário de analisar qual é a sua tarefa de maior prioridade e que pode lhe aliviar de outras. Proteja um horário fixo na semana só para pensar no negócio, longe do operacional.

 

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