Saudabilidade com impulso da canetas emagrecedoras
Com a renda crescente e o desemprego em 5,6% (menor patamar desde 2012, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), tem sobrado pouco para o abastecimento do lar, segundo estudo da NielsenIQ. Esta desaceleração do consumo reduziu em 8% os itens do carrinho de compras do brasileiro em relação ao último ano. No entanto, os produtos saudáveis estão no caminho oposto, tendo alta de 11% nas compras em comparação com 2025.
Assim como acontece com as BETs (plataformas de apostas online), muitas pessoas investem boa parte do seu salário em soluções rápidas de embelezamento, com o uso de canetas emagrecedoras. Além da perda de peso, a pesquisa "Tendências e Reflexos no Mercado do Novo Consumidor Saudável” , da Nielsen IQ, aponta como tendências do novo consumidor nutrição e saúde (consciência do valor nutricional dos alimentos), além de bem-estar (autocuidado).
Esses fatores estão impulsionando o aumento do consumo de produtos de maior saudabilidade nos supermercados. É um mercado que movimenta US$ 6,3 trilhões e pode chegar a US$ 9 trilhões até 2028. A NielsenIQ projeta alta de 7,3% de 2023 a 2028, enquanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta aumento de 4,8% no Produto Interno Bruto (PIB) global no mesmo período.
CATEGORIAS IMPULSIONADAS
Para o diretor de Atendimento ao Varejo da NielsenIQ, Domenico Tremaroli Filho, a redução do preço dos medicamentos à base de GLP-1 deve a ampliar o acesso da população a esses tratamentos: “Hoje, apenas 4,6% dos lares brasileiros utilizam medicamentos dessa classe, mas 26,1% já demonstram interesse. Com a quebra das patentes e a entrada de novos fabricantes no mercado, a adoção desses tratamentos tende a aumentar substancialmente.”
No varejo supermercadista, ele acredita que consumidores mais focados em saúde, controle de peso e qualidade de vida passem a buscar cada vez mais alimentos mais nutritivos, menos processados e com melhor perfil nutricional. “Isso deve impulsionar categorias como frutas, legumes, verduras, proteínas magras, produtos funcionais e alimentos com apelo de saudabilidade, além de penalizar categorias como chocolates, bolos, bebidas alcoólicas e não alcoólicas açucaradas.”
Também o varejólogo Maurício Morgado visualiza uma migração para produtos de mais qualidade calórica e valor nutricional. “Pode-se esperar uma busca maior por proteínas, produtos saudáveis com pouca gordura, porque um dos efeitos colaterais do Mounjaro é a dificuldade de digerir as gorduras. Então, as pessoas demoram muito tempo, passam mal se comerem demais coisas engorduradas e muito calóricas. Com certeza, já se percebe isso no mercado.”
Mudança estrutural
Dados da NielsenIQ mostram que 86% dos brasileiros já adotam pelo menos um hábito mais saudável, o que demonstra uma mudança estrutural no comportamento de consumo.
“Os supermercadistas podem reavaliar o seu sortimento, observando seus próprios indicadores de vendas, repriorizando segmentos saudáveis já trabalhados na loja, além da possibilidade de ampliar o sortimento de produtos saudáveis, melhorar a sinalização das gôndolas, destacar benefícios nutricionais e investir em experiências de compra que facilitem escolhas mais equilibradas”, sugere Domenico.
Também é importante, segundo o especialista da NielsenIQ, trabalhar a educação do consumidor, oferecendo informação clara sobre ingredientes, origem e valores nutricionais dos produtos: “O desafio está em mostrar que a saudabilidade não precisa estar associada exclusivamente a produtos premium. O consumidor busca equilíbrio entre saúde e orçamento, especialmente em um cenário de pressão financeira.”
Uma estratégia, indicada pelo diretor de Atendimento ao Varejo, é oferecer diferentes faixas de preço dentro das categorias saudáveis, ampliando o acesso por meio de marcas próprias, promoções, embalagens econômicas e maior participação de alimentos in natura, como frutas, legumes e verduras: “Além disso, é importante comunicar o custo-benefício desses produtos, reforçando seu papel na qualidade de vida e no bem-estar.”
O head do Centro de Excelência em Varejo da Fundação Getulio Vargas (FGVcev), Maurício Morgado, chama a atenção para a importância da sinalização no ponto de venda. “Tem que ter produtos que satisfaçam essas novas necessidades dos consumidores. Preço é importante, mas neste momento talvez as pessoas estejam buscando a questão de qualidade mesmo. Outra coisa legal é criar sessões para itens saudáveis, mas eles devem estar junto com os outros. A mente das pessoas está organizada para comprar uma certa categoria e buscará dentro dela os produtos com menos calorias e que ajudem nas dietas.”
Viezzer amplia opções saudáveis
O superintendente comercial da Rede Viezzer, Matheus Viezzer, vê a saudabilidade além de uma tendência temporária: “Ela hoje tem grande peso na decisão de compra. Nos últimos tempos, e de forma muito acelerada neste ano, percebemos uma mudança drástica no padrão de consumo. O advento e a popularização dos medicamentos voltados ao emagrecimento (como as canetas emagrecedoras) transformaram os hábitos.”
Segundo ele, o cliente passou a buscar porções menores, porém com maior densidade nutricional. “Há uma procura massiva por produtos com mais proteína e menos açúcar. Nós já vínhamos nos preparando para essa virada desde o ano passado. Nosso objetivo é unir variedade, qualidade e acessibilidade, desmistificando a ideia de que comer bem é caro e tornando esses itens acessíveis para diferentes perfis de consumidores.”
Há cerca de três anos, o Viezzer já trabalha com sementes e oleaginosas. “Começamos de forma gradual e fomos apostando no segmento à medida que o consumo crescia. Hoje, o formato se adaptou ao perfil de cada filial. Assim, oferecemos o produto a granel em três de nossas maiores lojas e nas demais unidades, que possuem características mais voltadas à conveniência e ao atendimento de bairro, disponibilizamos os itens em embalagens prontas, em porções”, explica Matheus.
Atualmente, as 11 unidades da rede, em Canoas, Esteio, Porto Alegre e São Leopoldo, contam com o espaço setorizado "Vida + Saudável", inaugurado em abril. “Isso garante que, independentemente do tamanho da loja, o cliente encontre o mesmo padrão de organização e qualidade”, garante. Também foi lançada em abril uma edição especial da revista do supermercado, dedicada ao tema. O mix é composto de pelo menos 400 itens voltados à saudabilidade. “Nosso portfólio segue em constante evolução, e a meta é expandir ainda mais esse número até o final do ano”, anuncia.
Conforme a pesquisa "Tendências e Reflexos no Mercado do Novo Consumidor Saudável” , da Nielsen IQ, o aumento em volume das categorias acompanha busca por saudabilidade:
Categoria Produtos Índice
FLV Frutas +9,3
FLV Legumes +8,0
FLV Verduras +1,2
Proteínas Ovos +14,4
Proteínas Peixaria +11,1
Proteínas Frango +3,8
Lácteos Queijo Fatia +15,7
Lácteos Sobrem. Gel. +12,4
Lácteos Creme Ricota +8,5
Não Alcoólicos Energético +11,2
Não Alcoólicos Água Min. +10,2
Não Alcoólicos Chá Pronto +4